Onde a Neblina Beija as Casas
- 4 de jan.
- 3 min de leitura

A chegada da primavera traz consigo dias mais longos e uma luz insistente, que parece querer beijar cada canto esquecido da casa. É o ciclo dos recomeços, de respiros mais calmos. Mas não se engane: essa claridade não esconde o fato de que habitamos um pequeno — e adorável — universo amaldiçoado.
Vivemos em um lugar onde o tempo é instável. A qualquer momento, ele pode se desdobrar em camadas densas de neblina sobre colinas sonolentas e florestas fechadas. Às vezes, encontro um charme hipnótico na maneira como o nevoeiro desce sobre as casas. Gélido, ele transforma nossa vizinhança em algo saído diretamente de um conto fantástico. Honestamente, é como se vivêssemos em uma versão particular de Sleepy Hollow, sempre no limiar de algo que não conseguimos enxergar por completo. Essa quietude é um convite ambíguo: ora à introspecção, ora à paranoia.
O Mistério que Habita o Corredor
A jornada até o nosso "lugar feliz" é feita de curvas sinuosas. Entre as melhores memórias que guardo daqui, a neve ocupa um lugar especial; ela surgiu pouco depois de nos mudarmos, pintando a paisagem de uma forma que eu nunca imaginei ver tão de perto.
Fomos felizes em todos os lugares que chamamos de lar nesta terra. No entanto, a felicidade, tal qual a luz, inevitavelmente atrai sombras.
Em uma de nossas moradas anteriores, algo curioso aconteceu. Mais de uma vez, pessoas sem qualquer conexão entre si relataram a mesma visão: o vulto de um rapaz, vestindo uma camiseta laranja, atravessando o corredor. Ele se tornou o mistério insolúvel da nossa cronologia familiar.
Para um escritor, esse é o tipo de "assombração" que alimenta a alma. Minha imaginação continua tecendo uma tapeçaria em torno dessa figura. Em algum momento, será inevitável: darei vida a um conto sobre quem — ou o quê — é o rapaz da camiseta laranja. Talvez essas visões sejam apenas a forma de o nosso subconsciente nos lembrar que nunca estamos realmente sozinhos, mesmo quando o silêncio diz o contrário.
Batismo de Sangue e a Conquista do Santuário
Nem tudo foi poesia. Atravessamos um período de trevas onde a luz de velas não era um charme estético, mas uma necessidade imposta.
Em qualquer lugar do mundo, as coisas podem desandar. Conosco, o caos veio na forma de burocracia e descaso: havíamos erguido a casa dos nossos sonhos, mas a companhia elétrica se recusava a ligar a chave. A escuridão resultante foi desagradável e, sejamos francos, assustadora. Existe um terror muito particular em ter seu santuário negado e, posteriormente, violado.
Felizmente, após um longo teste de nervos — e o que eu chamaria metaforicamente de um "batismo de sangue" — não recuamos. Hoje, desfrutamos plenamente do nosso refúgio. Adoro o clima frio, o aconchego das mantas e, confesso, adoro a lenda local de que nossa cidade carrega uma maldição.
Rezo para que o mercado imobiliário demore a descobrir a nossa paz. A tranquilidade é um recurso finito, e observar o que o "progresso" desenfreado tem feito ao redor me causa uma ansiedade genuína.
A Quietude Necessária
Recentemente, enquanto colocava as roupas na secadora, fui atingido por um momento de quietude total, quase meditativo. Não há sensação mais acolhedora do que sentir que, após quase meio século de vida, você finalmente encontrou seu lugar no mundo. Um porto seguro onde é possível se aceitar e conviver em harmonia com as próprias luzes e sombras.
A última primavera foi o cenário perfeito para isso: buscar lugares isolados e permitir que aqueles "cliques" mentais aconteçam. Há beleza por toda parte, mas aprendi a não me distrair. A neblina e a luz suave devem servir de inspiração, nunca de desculpa para a inércia.
Afinal, antes de 2025 se despedir, eu tinha uma missão: dar vida ao meu conto especial de Natal. O tempo tornou-se curto e urgente, mas, como tudo o que é gestado no silêncio destas colinas, no fim, tudo deu certo.



Comentários